Review - Boy's Love 2: Sem Preconceitos, Sem Limites

1:00 PM Lorena Miyuki 2 Comentários


Resenha do segundo volume da coletânea da Draco, Boy's Love!



TítuloBoy's Love 2: Sem Preconceitos, Sem Limites

Autores: organização de Tanko Chan (diversos autores)
Idioma: Português
Editora: Editora Draco
Ano de publicação2015

175 páginas.
Para amar e ser livre. Sem limites.
Boy’s Love ou yaoi são apenas formas de descrever o fenômeno que surgiu no Japão e conquistou o mundo. Histórias cheias de sensibilidade e afeto, protagonizadas por rapazes em relações homoafetivas, uma maneira de ver a vida que abre as portas da fantasia e se aprofunda no questionamento sobre o que é certo ou errado. Viaje para o mundo dos mortos ou descubra lindos seres que só poderiam sair dos tomos da mitologia. Nessas páginas o terror e a ternura serão apenas preliminares para o que não pode mais esperar.
Em Boy’s Love – Sem preconceitos, sem limites, a paixão fala mais alto e é a tônica nesses encontros. Lemon é um termo que virou sinônimo de ficção cheia de cenas picantes e sem restrições para o prazer. E nessa edição, é também o nosso tempero para experimentarmos sem pudores o que as palavras podem expressar.
Organizada e ilustrada por Tanko Chan, que também participa com um conto, essa antologia traz deliciosas histórias por Dana Guedes, Claudia Dugim, Nuno Almeida, Márcia Souza, Priscilla Matsumoto, Karen Alvares, Vikram Raj e Blanxe.
Quando as primeiras peças de roupa caírem no chão, beijos e carícias guiarão a existência dos amantes. Não haverão mais barreiras para esse amor. Isso já ficou para trás.


Há pouco mais de dois anos eu resenhei o volume um aqui. Na época, o volume dois ainda não tinha sido planejado, mas alguém ouviu minhas preces e ele foi lançado em julho de 2015. Só tive a oportunidade de lê-lo agora, porém, e vou comentar todos os contos assim como fiz com o primeiro. O prefácio continua sendo da Tanko, mas dessa vez não me chamou tanta atenção como no primeiro, então vamos direto para as histórias:

Daruma, de Dana Guedes.
Um jovem sem perspectiva de vida sofre um acidente e seu boneco de madeira tem de ajudá-lo a cumprir sua promessa. Já conhecia a escrita da Dana e, apesar de não ter agradado nada de "Flor de Ameixeira", gostei bastante desse conto aqui. Deve ser um dos mais compridos do livro e, talvez por causa disso, não tenha passado a impressão de que foi corrido demais. Teve o ritmo certo, os personagens são empáticos e agradáveis. Não costumo gostar de muita "apropriação sem explicação", digamos, mas, no geral, até as explicações sobre a cultura oriental foram bem trabalhas sem se tornarem enfadonhas ou quebrarem a fluidez da leitura.

Lolipop, de Claudia Dugim
Um mundo controlado por regras, onde todos são marcados desde o nascimento por tatuagens que definem seus corpos e suas personalidades.
De longe o que achei mais original, o que mais gostei! Adorei a ideia, apesar de ter tido dificuldade inicial de entender o que estava acontecendo. Mesmo que bastante erótico (coisa que eu, particularmente, não gosto), o jogo de palavras me agradou, os personagens são muito palpáveis e o universo, apesar de pouco explorado devido ao tamanho do conto, foi muito bem apresentado. De início, não gostei da diferenciação na escrita pelo ponto do Kani. Também não sei se foi proposital ela mudar no decorrer do conto, mas o incômodo passou, depois que, acho, entendi o propósito. Apesar de angustiante, o final foi super condizente com a trama.

No Amor e na Guerra, de Nuno Almeida
Fazendeiros, padeiros, gente comum arrastada da vida cotidiana para integrar as forças de combate do reino.
Outro que gostei bastante, achei poético e muito bem escrito, um vocabulário de invejar! O clima foi muito bem trabalhado e sentido pelo leitor, o que é difícil de fazer com algo que não estamos acostumados a lidar no dia a dia, que é a guerra. Ainda mais guerra no sentido feudal. A descrição do ponto de vista de Ingrad no meio da batalha foi tão bem feita que me senti ao lado dele, empunhando um pique! Também fico feliz pelo final não ter caído nas graças do clichê de sempre, e do autor ter dado chance da história não morrer ali. Aplausos devidamente dados!

O Colar de Scheherazade, de Márcia Souza
A história através dos tempos de um objeto que julga e pune.
Confesso que não entendi boa parte do conto, eu acho. O começo é interessante, mas, depois da entrada de dezenas de vozes diferentes, me perdi na história. Gostei da ideia da polícia que caça coisas sobrenaturais, mas a mistura de diversos tempos (históricos) e de personagens que hora pertencem ao "passado", hora ao "presente", me confundiu bastante. É uma ideia bem atraente, mas não sei se foi executada da melhor maneira.

O reflexo do dokkaebi, de Priscilla Matsumoto
Um conto sobre uma lenda coreana, um espírito que pune (ou recompensa?) um professor cansado.
Me identifiquei com a parque do professor, tava tudo indo muito bem, mas me desinteressei pela "história" do dokkaebi. Achei curtinho demais; de uma hora pra outra, o ritmo acelerou muito, não deu pra me apegar a nenhum dos personagens. Não deu pra entender e/ou sentir a intenção por detrás deles ou do conto em si, e o final foi abrupto e solto.

O Sentimento, de Karen Alvares
Dois amigos de infância escondem segredos e sentimentos.
Já conheço a escrita da Karen e, mesmo não gostando de "Inverso", achei esse conto aqui bem mais empático e impactante. Apesar de bastante clichê e pesado, o desenvolvimento foi convincente, nos fazendo efetivamente enxergar os personagens. Eu só achei que a primeira narradora, a doutora, foi deixada de lado sem nenhuma explicação. E, apesar da coletânea ser toda focada em literatura fantástica, marca registrada da Draco, eu não vi elemento fantástico algum aqui, cadê? (é sério, me mostrem, deixei passar batido?)

O Palácio dos Rakshasas, Vikram Raj
Um conto cheio de deuses da mitologia hindu, que deve ter levado séculos de pesquisa.
Confesso que no começo as notas de rodapé me incomodaram bastante - afinal, num universo tão rico e inexplorado que é a cultura indiana, é de se esperar que a gente fique confuso. Mas sou da opinião que não precisamos justificar todas as coisas que escrevemos para dar sentido à história. Se o leitor não sabe exatamente o que é tal elemento, deixe que ele faça seu trabalho de pesquisador também! Não precisamos entregar de bandeja todos os detalhes mastigadinhos, sabe? Apesar disso, achei o conto riquíssimo, principalmente porque traz história e fantasia de um jeito ao mesmo tempo convincente, realista e  instigante. Apesar da mistura de personagens para mim desconhecidos, e que eu deliberadamente ignorei, os dois principais são bem trabalhados, mesmo que tenha achado o envolvimento deles corrido demais pra ser chamado de "amor" com tanta leviandade (mas isso sou só eu e minha chatice falando mais alto). Enfim, gostei principalmente por ter mostrado que o autor se preocupou com todos os detalhes da trama e de estudá-la antes de colocá-la no papel. Mas, como sou bem chata, eu mudaria o título.

Perfect Mistake, Blanxe
Espaço, experiências com regeneração e gente fazendo bobagem. Ou seja, não sei resumir bem esse conto, principalmente porque me perdi um pouco na sua ideia principal. Achei que a história envolveria o primeiro ponto de vista, que é do Douglas, mas então passamos para o Edgar, e surge um Marx, e o enredo mistura a história dos três de forma confusa. Ao mesmo tempo em que temos a boa ação de Edgar ao querer consertar seus erros com Douglas, a gente se depara com o inesperado envolvimento dele com o cientista. E o final não condiz com o começo; o personagem "principal" é completamente esquecido. Apesar de adorar a ideia, principalmente por envolver espaço e tudo, foi o que menos gostei por causa do seu desenvolvimento.
Ah, eu também mudaria o título, pelo menos para colocá-lo em português (chatice em níveis altíssimos aqui, eu sei).

Maçã, Tanko Chan
Viagem no tempo e portais místicos.
Eu acho que esse conto tem muito mais entrelinhas do que encontrei, porque até agora estou pensando se eu consegui entendê-lo. Gostei dos personagens, os dois principais foram bem construídos e escritos. O começo me prendeu bastante, mas fiquei confusa com a falta de objetividade com que eles se comunicam e nos comunicam a história. Realmente parece que tudo ficou nas entrelinhas, ou eu preciso de alguém pra me explicar o que aconteceu de verdade. Confuso, confuso!


Em suma, de um modo geral, fiquei bem mais contente com esse volume que o primeiro. É notável a diferença de cuidado dos autores (e da editora, e da Tanko) com esse; a revisão, que sempre me incomoda, aqui não foi leviana e merece créditos positivos. A diagramação melhorou, o fato de ter uma ilustração bonita para cada conto também agrega pontos positivos.

Eu sabia que o segundo volume focava em contos com cenas mais explicitamente eróticas, o que, num primeiro momento, me deixava com um pé atrás na leitura. Eu particularmente não gosto de enfiar sexo em contextos que não fazem sentido só para agradar os "fãs" - mas fiquei positivamente surpresa ao ver que em todos os contos as cenas eróticas se encaixaram muitíssimo bem. E, por mais explícitas que fossem, ou com vocabulários que não me agradavam, eu gostei bastante do conjunto todo, sabe? Comprei a ideia de todos os autores e simpatizei com elas - algumas vezes mais, outras menos, é verdade, mas consegui enxergá-los de outro modo, além do meu "preconceito com cenas eróticas", e isso não afetou meu julgamento quanto às histórias, o enredo em si. Afinal, hora alguma as cenas de sexo me fizeram gostar mais ou menos de determinado conto, mas sim o modo como foram escritas e, principalmente, encaixadas no enredo.

Se, como eu, você não gosta muito de erotização, dê uma chance porque acho que vai se surpreender. Se você já é alguém que gosta de ler coisas picantes, vai amar esse livro. Sério.

2 comentários:

  1. Obrigada pela resenha Lorena. Adoro saber a opinião dos leitores. Para mim é importante saber se consegui passar um pouco desse universo caótico de emoções e imagens que ficam dançando e digladiando na minha mente.
    Um beijo

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  2. Oi Lorena. Daqui fala o Nuno Almeida. Só agora li a sua resenha e fico bem contente que tenha gostado do conto. Para mim é muito importante ver a opinião dos leitores para saber se fui bem sucedido ou não. Escrever é algo que se vai trabalhando, como deve saber, e é preciso ver o que funciona ou não para podermos melhorar. Abraço

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