Review - Naomi & Ely e a Lista do Não-Beijo

2:08 PM Lorena Miyuki 1 Comentários

Da dupla dinâmica Levithan e Rachel, mais um juvenil que eu... não gostei tanto assim.
Também assisti ao filme, a adaptação do livro, e vamos saber o que achei?

Vou falar do livro primeiro e, lá embaixo, faço uma pequena análise do filme baseado nele, tá? Então se quiser saber só do filme, é só rolar a página.


Título: Naomi & Ely e A Lista do Não-Beijo (Naomi & Ely's No Kiss List)
Autores: David Levithan e Rachel Cohn
Editora: Galera Record
Ano de publicação: 2007 (original), 2015 (Brasil)

A quintessência menina-gosta-de-menino-que-gosta-de-meninos. Uma análise bem-humorada sobre relacionamentos. Naomi e Ely são amigos inseparáveis desde pequenos. Naomi ama Ely e está apaixonada por ele. Já o garoto, ama a amiga, mas prefere estar apaixonado, bem, por garotos. Para preservar a amizade, criam a lista do não beijo — a relação de caras que nenhum dos dois pode beijar em hipótese alguma. A lista do não beijo protege a amizade e assegura que nada vá abalar as estruturas da fundação Naomi & Ely. Até que... Ely beija o namorado de Naomi. E quando há amor, amizade e traição envolvidos, a reconciliação pode ser dolorosa e, claro, muito dramática.

Naomi e Ely são egocêntricos, a gente percebe isso nas primeiras linhas. Eles pensam e agem por eles mesmos e só. Dizem que Naomi é bonita, apesar de não haver descrições físicas no livro, o que a torna arrogante e no direito de achar que vai sair por cima por causa de sua aparência - afinal, todo mundo se apaixona por ela. Menos quem ela quis que se apaixonasse: seu melhor amigo (gay) Ely.

Ely é muito parecido com Naomi, fútil e nariz empinado, mas também é promíscuo e até irresponsável. Os dois cresceram juntos e descobriram a vida juntos, até passaram por uma tragédia familiar que envolve os pais de Naomi e as duas mães de Ely. Eles sobreviveram a tudo isso com ajuda de regras próprias e rituais em dupla. Assim nasceu a Lista do Não Beijo: nomes de pessoas que nenhum dos dois poderia beijar para que a amizade não fosse comprometida. Eles só se esqueceram de colocar o nome de ambos nela e, no meio das loucuras e experimentações dos dois, Naomi começa a ficar obcecada por Ely e acha que ele vai "virar hétero" por sua causa. Até que ele fica com seu namorado, Bruce, O Segundo, que também não estava na lista..

Porque nunca gosto dos livros do Levithan como co-autoria, principalmente com a Rachel, - é o jeito dele de "se diferenciar/destacar" que me incomoda muito, não me apetece, não me atrai - não foi diferente aqui. O livro é cheio de referências até desnecessárias, que brasileiros nem vão entender direito, o que me irrita profundamente. Os maneirismos e a forma como a trama é contada também não me agrada: cada capítulo é um personagem diferente, mesmo os terciários, como a Kelly ou os Robins, ganham voz e nem sempre isso é necessário (Kelly! Que desnecessário!).

O relacionamento de Naomi e Ely é, de certa forma, até doentio. Por mais que pareça legal num primeiro momento, eu não consegui enxergá-los como amigos saudáveis, sabe? Isso me preocupou e me enervou também.

Naomi é uma personagem irritante até para ela mesma! E inverossímil, e desapegada demais ao ponto de nem parecer, bem, humana... O fato de Ely ter ficado com Bruce demonstra o quanto ela "se preocupa" com o sentimento das outras pessoas: nada. Além disso, seu amadurecimento, extremamente necessário e aguardado, vem sim, mas de forma meio abrupta, como uma epifania que resolve sua vida toda num pensamento, literalmente! Apesar de ter sido isso que me fez gostar (mais ou menos) da obra, ainda achei que foi bastante corrido.

Ely é um estereótipo ambulante; outra coisa que não gosto nos personagens do Levithan nesses livros é justamente isso: eles são todos montados demais, nunca parecem reais. Tudo bem que é engraçadinho ver a jornada dele de auto-descoberta e as lições de moral que ele vive, o que justifica, até certo ponto, seu amadurecimento durante o curto período de tempo em que a história se desenrola. Mas ainda é um personagem que não convence totalmente.

O melhor personagem, sem sombra de dúvida, é o Bruce, O Segundo. Ele passa sinceridade sem soar ingênuo ou falso. Ele tem o ritmo certo, e todos os seus capítulos trazem uma reflexão inteligente e emocionante. De longe, Bruce salva toda a primeira metade do livro! O Segundo, porque o Primeiro, gente, sinceramente, que desperdício...
Capa de 2008 original

Pontos positivos da edição brasileira: adorei a capa! Ela se parece com uma das versões originais que foi lançada em 2008 e tem tudo a ver com a história. A textura da capa brasileira também me agradou muito, a diagramação tá ok e a revisão não dormiu no ponto dessa vez. Só achei que o início dos capítulos podia ser menos "crú", no quesito nome dos personagens e tal.

Enfim.

Acho que li esse livro numa hora errada, vou confessar, mas as entrelinhas me fizeram gostar mais dele, pois foi através delas que consegui me identificar e gostar mais também dos personagens que amadurecem e que se (re)conhecem. Há uma mensagem muito bonita por detrás, mas não sei se foi passada da maneira correta, talvez justamente por serem, todos, extremamente fúteis, egocêntricos, inverossímeis e estilizados demais.


Depois que li o livro, fui assistir a adaptação, que já está na Netflix há um tempinho.
Bem. O que dizer?
O filme foi bem adaptado, sim. Segue a trama do livro - as falas dos personagens são praticamente iguais aos diálogos do mesmo. Isso foi bem feito, bem encaixado. Mas as mudanças me incomodaram um pouco, a começar pelos próprios personagens.

A relação doentia de Naomi e Ely é ainda mais evidente na trama, mas Bruce, O Segundo, virou o Robin na adaptação - Robin homem é que é obcecado em fazer um filme da Naomi, e no filme isso foi passado ao Bruce. O Robin ainda está lá, mas virou um chapado esquisito que corre atrás da Robin (mulher) na biblioteca. A Robin também não se parece com ela, e tiraram todo o charme misterioso do Gabriel ao retrata-lo como um homem branco normal (Gabriel tem descendências diversas, o que o faz pertencer a várias minorias. Isso é explicado no livro e achei uma parte interessante demais para ser simplesmente ignorada na produção).

Há elementos no filme que não existem no livro, obviamente. A época da Halloween, por exemplo. A maturidade da Naomi chega de forma muito mais rápida nele, ela se transforma quase que completamente! É muito nítido ver a mudança de roupas, de atitude, de tudo nela. Já no livro, é um pouco brusco e forçado. O filme foca muito mais nela, inclusive, do que no Ely. Quem não leu o livro não vai entender as poucas referências e o que acontece entre ele e o Bruce (o passeio no museu, ele de terno no final, a "saída do armário", etc.).

Um dos elementos principais do livro também não está na película: os Starbucks, que foram substituídos por um café (indiano?) e uma confeitaria. O drama da mãe da Naomi foi bastante encurtado, ficando meio que nos ares, nas entrelinhas - o que é triste, pois é um gatilho muito importante na trama do livro. Também foram trocadas algumas cenas entre os personagens - por exemplo, no fim, é Naomi quem espera Ely na escada, e não o contrário, justamente por estarmos acompanhando sempre o ponto de vista dela.

Ely e Naomi: lindos, sim, MAS...
E é isso: o filme é basicamente o ponto de vista da Naomi. Não dos dois, não dos outros personagens. Como não gostei dela, não gostei muito do filme também (apesar de ela ser menos irritante nele, com toda certeza). No fim das contas, achei o livro melhor que o filme (pra variar).

Um comentário:

  1. Devo dizer que vi, na época do lançamento, muita gente surtada com esse livro. Mas, até hoje, nenhuma resenha me fez querer lê-lo. Muito menos assistir ao filme. O seu review só reforçou o que eu já achava da história: cheia de estereótipos adolescentes (coisa que me tem feito cada vez menos gostar de livros "YA modinha").

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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