Review - Openly Straight (Apenas um Garoto)

1:30 PM Lorena Miyuki 2 Comentários

Livro lançado pela editora Arqueiro e que infelizmente teve seu título e capa totalmente modificados na versão nacional... Mas ainda assim vale a leitura!



Título: Apenas um garoto (Openly Straight no original)
Autor: Bill Konigsberg
Idioma: inglês (original) com publicação em português
Ano de Publicação e Editora: 2013 (original), 2016 pela editora Arqueiro.

Rafe saiu do armário aos 13 anos e nunca sofreu bullying. Mas está cansado de ser rotulado como o garoto gay, o porta-voz de uma causa. Por isso ele decide entrar numa escola só para meninos em outro estado e manter sua orientação sexual em segredo: não com o objetivo de voltar para o armário e sim para nascer de novo, como uma folha em branco.
O plano funciona no início, e ele chega até a fazer parte do grupo dos atletas e do time de futebol. Mas as coisas se complicam quando ele percebe que está se apaixonando por um de seus novos amigos héteros.

Quero começar dizendo que fiquei indignada com esse título super genérico e aleatório - tá, sei que não deve ter sido aleatório, mesmo porque tem a ver com a trama, mas mesmo assim estragou um pouco o livro pra mim. Eu tenho a versão original, mas preferi esperar pra comprar a nacional e ver a tradução, incentivar, essas coisas que faço sempre, né.... Mas confesso que a escolha do título e da capa me desapontaram, apesar da tradução estar bacana.

O título original é Openly Straight, ou, em tradução livre, "Abertamente Hétero", muito simbólico, aliás. Como a sinopse conta, acompanhamos em primeira pessoa os pensamentos de Rafe desde seu primeiro dia de mudanças: ele resolveu ir para uma espécie de colégio interno do outro lado do país  (EUA) para recomeçar. Não que sua vida seja ruim, muitíssimo pelo contrário: Rafe tem bons amigos, como Claire Olívia, não sofre qualquer tipo de preconceito, seus pais são maravilhosos, super abertos e envolvidos com causas sociais... Ele só está cansado de ter um rótulo sempre colado na testa, de ser conhecido como "o garoto gay" e meio que incorporar todos os estereótipos que vem com isso. Afinal, uma pessoa é só uma pessoa, né? Sua orientação sexual não tem que te definir. Certo?

Então Rafe recomeça do zero. Ele experimenta participar do grupo dos esportistas, coisa que não se sentia muito confortável em fazer na sua cidade natal. Ele gosta da companhia dos garotos novos porque eles não vêem o rótulo, eles só vêem Rafe. E Rafe já tinha planejado que não contaria a ninguém que é gay porque isso não diz respeito aos outros e não precisa estar no seu cartão de visitas.

A escola de Rafe é muito aberta em relação a várias coisas. Tem professores malucos (o de Educação Física e seus discursos engraçados e sem nexo) e professores super legais (o Sr. Scarborough, de literatura, como sempre). Rafe acaba desenvolvendo sua escrita em exercícios guiados por esse professor como uma espécie de terapia e análise das experiências que ele está passando, nessa de "não contar". O livro é  mais ou menos dividido entre os capítulos normais e pequenos trechos desse exercício, intitulado de "A História de Rafe", nos quais Rafe conta um pouco sobre seu passado e porque resolveu fazer o que está fazendo. Além disso, há comentários do professor que são muito valiosos para escritores em geral - essa parte eu adorei, né, porque dá pra gente se enxergar nos erros que Rafe comete na escrita e aprender com ele, refletir.

Rafe é um adolescente normal, que faz muito bobagem, claro, mas ele aprende muita coisa nessa jornada de auto-conhecimento. Aprende, por exemplo, que não dá pra ser você mesmo e esconder uma parte que é praticamente sua base. Não dá pra mentir pra todo mundo o tempo todo - e o pior: não dá pra mentir pra si mesmo. Porque Rafe se apaixona, é claro, por um garoto que acha que ele é só um hétero "se descobrindo". E aí ele começa a enxergar que algumas coisas devem sim ser expostas no cartão de visitas.

Há muitos personagens nessa história e eu confesso que não me apeguei à maioria deles. Os pais de Rafe são tão maravilhosos que eu cheguei a me perguntar se não eram utópicos demais, sabe? Gente, eles são o sonho de todo mundo (e talvez por isso mesmo o próprio Rafe também esteja cansado de tanta "perfeição"). Os meninos do grupo dos esportistas são todos muito genéricos pra mim, mas Toby e Albie conquistaram espaço e cena o suficiente para conseguirmos criar um vínculo. Claire Olívia não me passou muita confiança tampouco, parece mais do mesmo ("garota melhor amiga de garoto gay"), e o próprio Rafe é bastante apático em 50% da leitura... Mas então temos Bryce e Ben. E Ben rouba praticamente toda a cena porque ele é uma pessoa incrível, mas totalmente pé no chão e plausível, e Bryce também tem seus momentos que agregam valor ao drama todo. E eu fui me apegando a esses relacionamentos que se cruzam e acabei gostando muito mais do que imaginava. É uma leitura muito prazerosa!

Eu consegui entender muito bem as motivações e justificativas de Rafe para fazer esse "experimento social" (e eu enxerguei exatamente assim mesmo). Mas a maneira como o autor vai nos fazendo notar que às vezes simplesmente não podemos ignorar os rótulos, ou excluí-los, e que se mostrar é um ato de posicionamento (político, social, tudo) quase que necessário foi muito positiva para fazer os leitores refletirem. É quase como um debate acadêmico sobre o "sair do armário", só que escrito num livro adolescente e de modo que adolescentes consigam entender. Como num momento em que o protagonista está conversando sobre a ideia de que héteros não precisam se reafirmar o todo tempo, não precisar de "paradas hétero" e não precisam sair na rua contando que são hétero para seus melhores amigos. Um dos outros personagens solta a seguinte frase, que diz muito sobre esse debate:
"Se a gente não marchar nas paradas, as pessoas nunca vão nos ver"

E esse foi um ponto altíssimo na leitura pra mim. Poderia ser um livro qualquer, cheio de clichês (sim, muitos), mas a reflexão que traz consigo me fez gostar mais da trama. Além disso, Rafe descobre que às vezes quem está nos cobrando coisas o tempo todo é a gente mesmo, e que você pode ser quem você quiser sim, mas não vai se sentir bem quando for contra o que é de verdade.

O final é uma incógnita até os últimos 3% - sim, a gente não espera muita coisa depois que o ápice do drama é atingido. É um desfecho até que convincente porque é coerente, mas achei que faltou aquele "algo mais". A mensagem final de que alguém não precisa se aceitar ou tolerar para "viver em harmonia" é digna, contudo. E é uma história positiva de modo geral, e só por isso vale a pena conhecê-la.

Como comentei, a tradução foi feita com dedicação, o que é mais um ponto forte. Não li a edição física e sim o e-book e o cuidado com a diagramação digital também merece destaque.

É uma leitura curta. Se você não é do tipo que para para refletir, vai acabar rapidinho porque ele só tem 256 páginas. Tem comédia, tem um pouco de aventura e drama na medida certa. Recomendo a reflexão e o passatempo.

2 comentários:

  1. Apesar de achar um tanto clichê e previsível no começo, acabei gostando mais do que esperava desse livro! Li a continuação (1.5) e em breve começo a outra continuação (2.0) que, apesar dos spoilers que tomei, parece ser um livro tão bom quanto esse!

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    1. Sim! Exatamente essa a sensação!
      Não li as outras, mas tenho a história do Ben aqui... Ando com preguiça de continuações pq eu acho que ficou tudo bem explicado nesse.

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