Review - Luna

2:18 PM Lorena Miyuki 0 Comentários

Título: Luna
Autor: Julie Anne Peters
Idioma: Inglês.
Primeira publicação: 2004
256 páginas

ATENÇÃO: Esta resenha foi feita pela querida Kyran, postada originalmente aqui e com permissão devidamente pedida para repostagem!

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Resenha


Alerta de spoiler!


Luna é o livro de Julie Anne Peters, lançado em 2004 pela editora Little Brown. Eu o comprei há poucos meses pela Book Depository, tendo-o encontrado na listinha de desejos da Lô, em algum momento em que ela divulgou por aí. Namorei esse livro até achar um mês razoável para encaixá-lo ao meu consumismo bibliófilo.

O livro está em primeira pessoa, narrado não pela personagem Luna, que dá o nome, mas sua irmã mais nova, Regan. Logo de início conhecemos a rotina da família O'Neil, que começa de madrugada, quando Liam vai ao quarto da irmã para experimentar roupas femininas e ensaiar seus maneios; tendo sequência no café da manhã, quando todos estão à mesa - a mãe sempre ao celular, o pai lendo piadas no jornal para os dois filhos -, e Liam e Regan cumpliciam essa "identidade secreta" do mais velho. Liam é do tipo "nerd perfeito", sempre tendo as melhores notas, entende bastante de tecnologia; e Regan... Regan é uma garota comum, ou a comum garota incomum, de quem as pessoas do colégio costumam se afastar e nem mesmo lembrar, vivendo sempre à sombra das qualidades do irmão.

A narrativa invoca por várias vezes lembranças da infância de ambos, mas não acho que deva considerá-la uma história de vida: Ela descreve um momento, o momento em que Liam está prestes a explodir, e começa a fazer sua transição.

Falando do livro em geral, não é um enredo mega surpreendente e dramático que vai te deixar suspirando ou lamentando pelo resto da vida. Como eu disse, ele se trata de um momento; mas esse momento é de dias que trazem pequenos suspenses e surpresas, sim, positivas e negativas. Em suma, é a vida extremamente comum, inclusive o fato de um dos protagonistas ser transgênero. É um barquinho que você toma para uma fluência inalterável, assistindo uma paisagem que você já conhece, e que mesmo assim te faz sentir admirado. Então, eu gostei muito do livro. É aquele livro simples que você pega para ler quando quer aliviar a mente da sobrecarga de outros - quando são muito rebuscados ou possuem enredos muito complexos, que acabam te dando um nó -, por mais prazerosa que seja, e que pode se fazer querido depois, especialmente pelos personagens.

Tal como o cotidiano deles, os personagens são extremamente naturais. A autora não enfeitou nada, nem fugiu às regras gramaticais para colocar nas páginas exatamente o que a personagem pensa (e que o leitor muitas vezes pensa também). Coisas tipo:

They're radiant."
"Ooh, nice." Back to S. "S," I said. "They... stop shining eventually."
He dropped his arm. "They do? When?"
I met Chris's eyes. "When they die."
His eyes widened. "Stars die? I didn't know that."
"They burn out and leave behind black holes," I informed him.
He blinked a couple of times. He had the longest lashes. "Do your wishes die with them?" he asked.
Was he serious? He sounded totally serious. More sad. Like a little kid who just found out the truth about Santa Claus. "No. The wishes last forever."
He let out a long sigh of relief.
Quero dizer que se a Regan pensa "What?" em cima de alguma coisa, você provavelmente pensou também.
E isso é muito interessante, ao ponto de os pensamentos dela serem tão saborosos quanto o recheio da trama. Cabe bem chamá-los de chantilly.

Mas eu confesso que me incomodou no começo descobrir que Regan era personagem feminina, como se isso fosse enfraquecer a polêmica que já sabia que encontraria. Mesmo depois de me apegar à personagem, eu me perguntava se ela realmente deveria estar ali, mesmo pensando nas intenções da autora. Também teve momentos em que pensei que "certos tipos de pessoas odiarão esse tipo de pensamento", mas achei justo mantê-los não só para reafirmar a posição da personagem, mas para enfatizar sua personalidade. Você se sente lendo um diário, ou uma confissão, não o frenesi de uma mente inventada.

E para falar do livro, eu tenho que me ater à Regan, porque no fim eu descobri o quanto ela era proposital, talvez até projetada de uma personalidade real. Por mais que ela esteja aliada ao irmão, ela não é a personagem que inconscientemente esperamos que seja - uma defensora perfeita, de amor pleno e compreensão. Ela reconhece Liam como sendo Luna na maior parte do tempo, porque ela cresceu percebendo que o irmão era diferente, e eles sempre tiveram uma relação íntima; mas ela não é imune as atitudes de Liam, e por ele tê-la como maior confidente e mesmo cúmplice, muitas vezes as coisas acabam se complicando. Chegam momentos em que ela fica extremamente perturbada, enraivecida, ou simplesmente confusa/temerosa com toda essa história de transgênero - afinal, tudo o que ela sabe, sabe pelo irmão. Por isso no começo eu torci os lábios algumas vezes, mas me confrontei lembrando que Regan é de um mundo diferente do meu, embora tenhamos aspectos em comum; que ela não nasce sabendo das coisas, e nem eu mesmo, e que já é excelente ela não achar realmente confuso para si o fato de que Liam é Luna, e Luna é sua irmã de verdade. Mais ainda, Regan representa em vários momentos a repulsa e o impasse - daquelas pessoas que realmente não suportam a ideia, e tomam todas as ações de pessoas de "fora do padrão" como ofensa pessoal, e daquelas pessoas que amam as outras, mas têm dificuldade em conciliar-se com esse "problema". No fim, para mim, ela é uma personagem excelente, e o ponto de vista exclusivo dela é fundamental para torná-la mais interessante do que a própria Luna (e ela nem precisou se apaixonar por um vampiro que brilha no Sol, ou desenvolver poderes sobrenaturais!).

Mas Luna também é interessante. Ela esfrega na nossa cara como o machismo afeta os próprios homens, especialmente em sua relação com o pai, Jack. O que Regan nos diz, é o que nós mesmos absorvemos das circunstâncias mostradas.

Além disso, Luna é simplesmente uma gracinha, independente da identidade que assuma. Ela é meiga, empolgada e até desesperada demais pelas coisas que almeja. As cenas dos irmãos são fofas até quando eles brigam, porque não é preciso dizer o quanto eles se amam. Há um episódio em que Luna insiste para que Regan a acompanhe no shopping apesar de a última discussão ter sido feia, insiste como uma criança, desacreditada de que realmente teria uma punição.

Eu só achei que alguns pontos dessa personalidade saíram um pouco forçados. Como posso explicar? Liam era mais natural como Luna nas palavras da irmã, do que nas ações dele mesmo, em vários momentos. Há contradições, em que Regan diz que ele estava idêntico a uma menina muito bonita, mas todo o mundo na rua adivinhava que era um homem. E as mulheres que têm traços mais espessos, mais masculinos? Mesmo a maneira como o mundo exterior parecia enxergá-lo excessivamente me incomodou um pouco. É claro que eles são de outra cultura, e os estados norte-americano tem suas particularidades - além de eu me lembrar que não sou eu o menino quem sai por aí vestido do sexo oposto. Também levei em consideração o ponto de vista de Regan, e sei bem que em certas situações realmente achamos que todo o mundo está prestando atenção em nós, voltando suas reações para nós, e ponto. Por último, além de bonito e popular, também é mestre em eletrônicos e rico, trabalhando com isso. Me pergunto até como ele tem tempo de ser tanta coisa, especialmente porque os períodos nos colégios norte-americanos são bem maiores, e o ensino bem mais rigoroso. Eu não tive um terço do que a Regan descreve em suas aulas de química, mesmo estudando em colégio particular.

De qualquer forma, para mim, todos os personagens são apaixonantes - exceto a mãe deles, quem está mais para paisagem do que personagem realmente, e isso também foi proposital da parte da autora, não uma falha. Eu adorava as cenas de café da manhã da família, as piadas do pai, as discussões que surgiam. E o Chris? O Chris é simplesmente a coisa mais fofa da história, na minha opinião. Só não conto aqui quem é Chris para não estragar todo o divertimento que se tem com ele. Eu amo transgêneros, queria mesmo saber o que sucederia a Liam; mas eu ansiava realmente pelos aparecimentos do Chris, e lamento não tê-lo visto no desfecho.

A leitura é relativamente fácil. Talvez para alguém em nível mediano para cima? Eu conseguia entender perfeitamente o que se passava mesmo passando em palavras desconhecidas, elas não me faziam tropeçar - tanto que, no começo, eu tentava traduzir todas, mas percebi que estava fluindo sem elas, e passei a consultar os significados, então, apenas quando eu via passar alguma coisa. É toda uma leitura bem rápida, do tipo simples e gostosa, melhor até que a do último livro que eu li no idioma (Bliss, de Lauren Myracle) - inclusive por conter mais detalhes, deixando mais nítidas as ações dos personagens, mesmo as expressões.

Enfim, é o tipo de livro que mal terminei de ler e sinto vontade de ler de novo. Isso nunca me aconteceu, e é porque, como eu disse, ele é bem simples. Surpreendo-me porque eu costumo me apegar mais a histórias mais caprichadas, complexas, que me levem a pensar por muito tempo; e também porque eu sinto que tenho uma visão de transgêneros mais aprofundada do que a que vi ali, fazendo alguns "discursos" soarem repetitivos para mim.

Adicionais

Falando em discurso, é óbvio que ele estaria presente. Eu tenho o problema de fazer caretas a certas coisas que me parecem "moralistas demais", e não porque eu as menosprezo. Acho que é porque pesquiso tanto sobre elas que tenho mais expectativas por algo novo, e ler mais de duzentas páginas sobre um mesmo tópico acaba sendo, só, cansativo.

Pensando nisso, comecei a me questionar como eu, em minha santa esnobeza, gostaria de ver esses assuntos serem tratados, então. Percebi que é instintivo, que mesmo pegando um livro sabendo que ele vai se prender em algo que já sei, eu acabo sentido esse cansaço; daí, repito a mim mesmo que o livro é voltado àqueles que estão começando a adentrar o assunto e blábláblá. Por isso são livros que costumo recomendar.

Eu tento fazer uma abordagem diferente, mas enquanto escrevia a Constelações, percebi o quanto isso é difícil - ao menos no começo, e se você escreve baseando-se na realidade. Digo no começo porque eu tenho muitos escritos que discursam sobre a homossexualidade, onde está o pecado em gostar de alguém do mesmo sexo e tudo mais; mas com o tempo, eu nem mesmo uso a palavra "gay", ou qualquer outra de mesmo significado, para definir meus personagens - exceto em ofensas ou humor. A maioria não se define por esses termos, e eu aprendi isso tanto em livros quanto em aulas de História - pois esses termos eram inexistentes até certa época, e mesmo quando existiam, as pessoas não chamavam a si mesmas por eles, reconheciam-se apenas como pessoas que se envolviam com outras e pronto, a consciência do adjetivo que receberiam teria que vir em momentos mais específicos.

Usei a Constelações de exemplo porque ela faz uma abordagem maior sobre transgênero/transexualidade, embora a protagonista nem seja a minha primeira a se identificar plenamente como mulher. Enfim, a dificuldade em "fazer soar natural", quando, como eu disse, baseamo-nos em épocas reais, está na arduidade em ignorar o comportamento da época. Seria necessário que um personagem fosse muito recluso, em sua casa ou em sua mente, para que não existissem essas tantas imputações jogadas sobre ele. Mesmo hoje, se você anda na rua de mãos dadas com alguém do mesmo sexo, existe uma possibilidade grande de ser observado, receber ofensas e até ser espancado - tudo aleatoriamente, já que não somos previdentes de nada, apenas podemos nos precatar. Pessoas em outras épocas tinham mais dificuldade ainda, pois um mínimo toque poderia representar uma delinquência.

A minha metodologia é não utilizar os termos, mas isso também não é consciente. Meus personagens não costumam dizer a si mesmos que são gays, ou repetir isso a todo momento que se sentem atraídos pelo mesmo sexo. Digo porque eu vejo esse tipo de comportamento em vários escritos. Acho que o pensamento e a definição de si mesmos ocorrem por algum estímulo, e depois de a pessoa tomar conhecimento do que está pensando. Ninguém vai se dizer "homossexual", assim, verbalmente, no século XVIII, porque a palavra simplesmente não existia. Você não vai chamar uma flor de "rosa" se não sabe o nome dela, a não ser que se invente, e a invenção sempre tem algum propósito.

Mas, para esclarecer, não tenho nada contra esses termos. Eu só percebo que nem sempre eles servem. Muitas pessoas se sentem além de todos eles, eu mesmo. Acho que um termo restringe muito, e nós estamos sempre em movimento, eu não gosto de ficar andando em círculos. Vai sempre depender de cada um.

Resenha escrita por Kyran

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