Review - O livro das coisas que nunca aconteceram

9:24 PM Lorena Miyuki 0 Comentários

Um livro nacional de fantasia que vocês PRECISAM conhecer! Mais uma publicação da hoo editora!


Título: O livro das coisas que nunca aconteceram - uma viagem no tempo com Harry Darwin.
Autor: Ana Luiza Savioli
Idioma: português
Ano de Publicação e Editora: 2016, hoo Editora.

Sinopse: Harry Darwin deveria ter morrido. E há diversos universos e realidades nas quais tinha mesmo se afogado naquele 8 de outubro, no lago do colégio. Nesta realidade, porém, ele fora salvo. E de uma forma bastante singular: resgatado por um completo estranho, Harry descobre o nome de seu salvador quando seu corpo é encontrado nas dependências do internato, um dia depois: Damon Knight. E agora, ocupando o mesmo quarto que um dia foi de Damon, o irmão mais novo, Matthew, prova que mistérios e segredos rondam todos os Knight. Uma família responsável por curar o tecido da realidade. Por desfazer erros, traçar destinos e fazer a vontade do tempo. Em sua ânsia de entender o dia de sua não morte, Harry acaba envolvido no mistério do fim de toda a existência. O mistério do fim do tempo.

O livro começa narrando o dia em que Harry morreu - ou deveria ter morrido. E a partir daí tudo é spoiler, ok? Não dá pra falar nem dos personagens sem contar da trama toda, então fiquem avisados que essa resenha pode conter traços de spoilers, tá? MAS CONTINUEM LENDO PORQUE VOCÊS PRECISAM CONHECER ESSE LIVRO. Sério.

Então. Harry é um estudante bolsista (esportista, ele joga polo aquático) de um colégio interno, o St. Raphael, só para garotos ricos. Por ser bolsista, ele é de certa forma mais excluído dos demais, mas por ser do time de polo do colégio, ele tem certa reputação e acaba se juntando a um dos grupinhos famosos da escola. Apesar de difícil, a vida parece ir tranquilamente até que ele sonha que estava se afogando... Só que não é um sonho. Ele estava mesmo morrendo e alguém, um desconhecido, o salvou. Mas como assim? Harry é um nadador quase profissional, por que estaria se afogando? E quem o salvou?

A narração é em terceira pessoa, mas quase sempre pelo ponto de vista do Harry. Já nos primeiros capítulos somos apresentados à família Knight (e seus mistérios que temem em rondar nosso protagonista) através de Matthew, o único que ainda permanece na escola - ele é mais novo que Harry, mas os dois fazem aula juntos porque Matt é um gênio, como o resto todo da família, aparentemente. Os Knight são ao mesmo tempo temidos e admirados. Dalton, o mais velho, foi um aluno brilhante do St. Raphael, com direito a foto no "hall da fama", e Damon ia pelo mesmo caminho até que... desapareceu. Por dois anos. E reapareceu alguns dias depois que Harry "se afogou", porém morto.

O mistério que ronda a família Knight e sua ligação com Harry é muito palpável desde o começo. Apesar de termos contato com o Matthew, as coisas são muito nebulosas e muito instigantes! Eu não conseguia parar de ler porque queria muito saber o que diabos estava acontecendo! Por termos a perspectiva do Harry, e ele mesmo estar completamente desnorteado com a sequência estranha de acontecimentos que vêm depois da sua quase-morte, a gente acaba incorporando seus sentimentos também. É um misto de ansiedade com suspense, medo, não sei explicar! O clima do livro inteiro é bem sombrio, mas não do tipo que dá medo, mas do tipo melancólico, sabe? Há uma emoção estranha por detrás das situações, das falas dos personagens...

Aliás, os personagens! Que construção maravilhosa! Não precisamos de explicações longas sobre como eles são: eles simplesmente se mostram através das páginas! O começo é difícil de identificar os meninos do time de polo, por exemplo, e confesso que até o final não me apeguei muito a eles ao ponto de diferenciá-los pela personalidade (tirando o Greg, talvez, e o Bill, e o capitão, óbvio)... Mas isso não me impediu de apreciar todos de forma particular. Eles são muito bem encaixados, têm um timing perfeito, aparecem nas situações certas e falam as coisas certas nas horas certas. Dá pra se identificar um pouco, dá pra gostar e odiá-los - eu odiei (e meio que não entendi?) o Victor, por exemplo.

E por falar em personagem: Damon Knight. Agora cuidado com o spoiler.
Gente. Damon. Que personagem MARAVILHOSO! Eu acho que fui na onda do Harry de ficar encantada com ele desde a primeira cena do lago até a última linha desse livro, mas não tinha como ser diferente. O capítulo que ele narra "o nascimento do mundo" É TÃO LINDO e coerente que eu chorei de soluçar!

Aliás, o livro tem um índice com os nomes do capítulo, o que eu acho um pecado: os próprios títulos vão te dando spoiler! Minha ansiedade não gostou disso, porque eu ficava querendo chegar logo no capítulo tal porque sabia que alguma coisa importante ia acontecer... Mas acho que isso é bom, de certa forma, né? Pontos infinitos para a autora.

O ritmo da narrativa é bastante fluido, apesar de no começo termos a impressão de não estarmos indo a lugar algum. Depois que a gente se acostuma com as reflexões (às vezes um pouco desnecessárias e repetitivas, sim), parece que a história flui melhor. A maior parte dessas reflexões tem um propósito, ok, e leva o leitor a ficar procurando as respostas nas entrelinhas, o que é legal. Fiquei extremamente satisfeita de ver que eu estava errada com meus primeiros palpites quanto ao "mistério da trama (que é o Damon, né)", mas, depois do capítulo do Matt na sala dos livros (ops, spoiler), fica um tico mais "óbvio" o que de fato é o mistério. Aí eu fiquei um pouco frustrada e angustiada porque eu ficava pensando: "não, não pode ser isso, não é possível, será? Mas é muito óbvio..."...

O final é ao mesmo tempo surpreendente e, bem, esperado, de certa forma, pra quem conseguiu captar as entrelinhas ao longo da trama. Mas como foi muito bem escrito, deixamos de lado toda essas questões. Afinal, não importa se algo é previsível ou clichê contando que seja BEM ESCRITO e que emocione: a autora conseguiu os dois aqui. No fim também temos algumas "lições de moral" e a história é praticamente recontada de diversos ângulos, mas não fica enfadonha, pelo contrário: vai preenchendo as lacunas anteriores.

O livro é uma fantasia urbana no sentido de que trata de coisas cotidianas junto ao fantasioso/sobrenatural. Foi bem planejado e construído, tem seus desfechos redondos e coerentes. É literatura nacional e normalmente eu pego no pé de certas coisas "nacionais americanizadas", como é o caso: todos os personagens têm nomes estrangeiros, a história se passa sempre fora do país (há uma única menção ao Brasil, se não me engano) e os costumes e ideias são de estrangeiros. Achei o nome do protagonista - Harry - um tanto quanto sofrível porque adivinha quem me vinha à mente sempre que eu o lia? Isso mesmo, vamos combinar: até a aparência eu me lembrava de Harry Potter, apesar de os dois serem completamente diferentes! Tem uma pequena "explicação" para o nome do protagonista ser assim, mas ainda acho que poderia ter sido outro. Além disso, carece um pouco de revisão/copidesque mais especificamente porque diversos trechos poderiam ter sido mais bem escritos (há uma certa "americanização" até na escrita, no uso de alguns verbos ou modo de falar, por exemplo), bem ajustados à trama ou simplesmente cortados, porque só prolongam a narrativa e não acrescentam nada a ela - o livro já é bem grande, tem 400 páginas, pode ser mais fluido se for melhor revisado. Fora que esse título é muito grande, gente. E ainda tem um subtítulo! Tá certo que eles dizem muito sobre a história, a capa também diz, mas sei lá... Acho que podemos melhorar, hein?

Porém, O livro das coisas que nunca aconteceram TEM TUDO o que me agrada: escola interna, fantasia, romance (tem sim!), drama, mistério e foi muito bem escrito. Além disso, trata de questões filosóficas e físicas sobre o tempo (um assunto que eu AMO desde sempre) de um jeito delicado e emocionante. A "questão LGBTQ" é abordada de uma maneira bastante suave no início, e mais pesada no final. De novo: o capítulo do Damon é simplesmente fantástico, quero espalhá-lo para todo mundo!


A Hoo tem trago originais maravilhosos pra gente, desde "Volto Quando Puder" até quadrinhos e fantasia. A editora e mais especificamente esse livro merecem maior visibilidade! Vou panfletar por aí: LEIAM OS LIVROS DA HOO! LEIAM esse livro! Vocês vão se apaixonar, é sério!

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