Review - Aristóteles e Dante Descobrem Os Segredos do Universo

11:30 AM Lorena Miyuki 0 Comentários


Título: Aristóteles e Dante Descobrem Os Segredos do Universo

Autor: Benjamin Alire Sáenz
Idioma: Inglês/português
Primeira publicação: 2012 (original), 2014 pela Editora Seguinte
359 na original, 392 páginas na versão brasileira.

Dante sabe nadar. Ari não. Dante é articulado e confiante. Ari tem dificuldade com as palavras e duvida de si mesmo. Dante é apaixonado por poesia e arte. Ari se perde em pensamentos sobre seu irmão mais velho, que está na prisão. Um garoto como Dante, com um jeito tão único de ver o mundo, deveria ser a última pessoa capaz de romper as barreiras que Ari construiu em volta de si. Mas quando os dois se conhecem, logo surge uma forte ligação. Eles compartilham livros, pensamentos, sonhos, risadas - e começam a redefinir seus próprios mundos. Assim, descobrem que o amor e a amizade talvez sejam a chave para desvendar os segredos do Universo.




Esse livro estava na minha lista de desejos desde que soube do lançamento, mas confesso que, por não conhecer nem o autor nem a história muito bem, e por ter negligenciado reviews e notícias, não lhe dei a devida atenção. Acho que depois de algumas matérias em que ele aparecia, comecei a me apaixonar primeiro pela capa. A capa. MEU DEUS, ESSA CAPA! Que coisa espetacular!  A fonte, a paisagem, os elementos que tem tudo a ver com a história do livro! Acho que poucos livros conseguem representar tão bem o conteúdo pela capa como esse!

Aristóteles e Dante são dois adolescentes que nunca haviam se esbarrado antes até se encontrarem na piscina da cidade em que moram, El Paso, no Texas, EUA. Ari, com gosta de ser chamado, não sabe nadar e prefere aprender sozinho a ter que pedir ajuda a alguém. Então aparece Dante, que tão espontaneamente oferece para lhe ensinar sem cobrar nada em troca. Os dois passam de "instrutor e aluno" a amigos em poucas semanas, compartilhando visões de mundo às vezes bastante iguais, e em outras extremamente diferentes. Além dos nomes inusitados, eles vão ao longo do verão descobrindo que podem ter muito mais em comum do que o esperado - e desejado.

Aristóteles é o narrador do livro e ele é, como costuma dizer, sombrio e tempestuoso. Essas são suas "qualidades" mais evidentes e ele se incomoda por não conseguir se encaixar no mundo, por não saber quem é e por sempre parecer diferente demais dos outros jovens que conhece. Ele e Dante tem quinze anos no começo e estão passando por revoluções - internas e externas. Eles não entendem as regras de seus pais, não entendem qual o sentido da vida e muito menos o que eles são ou querem ser. Ari e Dante são pura dúvida, puro mistério e puro segredos embasados em regras insanas.

Ari é um narrador assombrado por pequenos detalhes que vão se desenrolando ao longo das páginas. Um deles - um dos principais - é seu irmão, que é outro fantasma tanto em sua vida quanto em sua casa. Ele não se lembra de nada dele, seu nome não é mencionado dentro de casa e não há nenhum retrato seu para que Ari possa contemplar. Ele poderia perguntar aos pais, mas o assunto é evitado de todas as formas. Além disso, o próprio pai de Ari é um problema: marcado pelas cicatrizes da guerra do Vietnã, ele não fala com ninguém, é taciturno e reservado ao ponto de não saber nem conversar com o filho. Então Aristóteles é um garoto sozinho, extremamente sozinho. Até encontrar Dante.

Capa original americana
Eu me emocionei muito com o livro. Muito mesmo e às vezes até sem razão aparente. Chorei demais, principalmente na cena do banho. Gostaria muito que ele tivesse se estendido pelo menos por mais umas dez paginazinhas, mas acabou tão  rápido e até um pouco abruptamente que eu fiquei relendo e relendo durante horas. Toda a trama é contata em capítulos pequenininhos do ponto de vista do Ari e recheado de diálogos. Quase não há descrições nem muitos detalhes, tudo acontece bem rápido e nós temos de acompanhar a angustiante saga de Ari e Dante em meio a pesadelos, acidentes e subjetivismo na busca das respostas que eles tanto procuram.

Subjetivo e delicado é isso o que Dante e Aristóteles são. Praticamente todas as coisas que Ari pensa tem outro sentido, são uma metáfora para questões mais profundas, questões existenciais complicadas. Ele é um garoto perturbado que vai amadurecendo sozinho e eu acho que é isso o que é mais bonito: o amadurecimento dele e como o Universo parece se desenrolar à sua frente na medida em que ele vai crescendo.

Os segredos do Universo são, na verdade, todas as perguntas que a gente já se fez um dia na vida - ou que ainda se faz, não sei - e que ninguém é capaz de responder com 100% de precisão ou de aceitação. A entrada do livro é um pequeno conjunto de questionamentos que nos faz pensar, assim como fizeram Dante e Ari pensar exaustivamente durante mais de um ano da vida deles.



Eu cheguei a comentar enquanto lia que me surpreendi pelo fato de o livro não contemplar nenhum clichê existente na literatura do gênero (LGBT, queer, o que vocês quiserem chamar), mas acho que falei cedo demais. Existe sim um pequeno clichê - não vou dizer qual é pra não dar spoiler a ninguém -, mas a forma como ele foi abordado foi excelente e inusitada. Pelo fato de vermos tudo sob o ponto de vista do Ari, às vezes as coisas pareciam ora pesadas demais, ora superficiais. E o que poderia ter sido tratado como uma tragédia-clichê, acabou sendo o ponto de partida para o clímax da trama.

Como é uma narrativa bastante subjetiva, há diversos detalhes do enredo que não nos são explicados, ou que são deixados nas entrelinhas para que o leitor possa refletir sobre. Por exemplo, o fato de ambas as famílias apresentadas serem de descendência mexicana - daí os desenhos na capa -, mas nem Ari nem Dante se sentirem mexicanos. Além disso, a trama se passa entre os anos de 1987 (meu ano de nascimento, yay!) e 1988 e não sei como era aceitação das pessoas quanto à sexualidade nem na época nem no lugar, mas alguns pontos, esse inclusive, deixam a entender que a coisa não era lá muito favorável.

O pano de fundo da história é pincelado com referências musicais da época, o que é muito legal, apesar de não ser nada aprofundado. Mais uma vez, porém, a forma inusitada como o autor aborda questões difíceis me ganhou muito. Eu me apaixonei pelo Dante logo de cara, pela sua autoconfiança e por ele ser uma "pessoa de verdades". Ele dá movimento ao enredo, mas todos os personagens desse livro exalam uma empatia gigantesca! É sério. Acho que existem pouquíssimos livros no mundo em que todos os personagens sejam tão carismáticos quanto os protagonistas - esse é um deles. Os pais do Dante são um amor, os pais do Ari são ótimos (mesmo com todos os problemas envolvidos), a família dele é toda uma curiosidade à parte.

Enfim. Já deu pra perceber que esse livro saiu da lista de desejos e foi direto pra lista de favoritos, né?

Recomendo não só para os garotos que tiveram que aprender a jogar com regras diferentes. Recomendei pra todo mundo que me viu chorando dentro do ônibus enquanto eu lia. Mas logo aviso: esse livro não é um romance. Essa não é uma história de amor entre dois garotos. Não, gente, só parem com essas "restrições"! Essa é uma história sobre o amor e que envolve muito mais que esses dois garotos do título.

Acredito que esse livro tenha muito do autor nele, que teve de aprender sozinho sobre sua própria sexualidade em meio a traumas do passado. Então mesmo que o Benjamin Alire tenha quebrado meu coração diversas vezes e me enchido de sentimentos transbordantes (?), eu o aplaudo de pé. Aliás, não só eu, olha a lista de prêmios literários que Aristóteles e Dante Descobrem Os Segredos do Universo ganhou:

Stonewall Book Award (2013), Printz Honor (2013), Lambda Literary Award for LGBT Children's/Young Adult (2013), Amelia Elizabeth Walden Award (ALAN/NCTE) Nominee (2013), Pura Belpre Author Award (2013).


Citações - citações por todas as partes, eu citaria o livro inteiro se pudesse! Então não vou colocar quase nada porque tudo é motivo de spoiler.






Agradeço imensamente à Editora Companhia das Letras, que detém o selo Seguinte de publicação voltada para jovens, por ter me cedido um exemplar dessa obra magnífica para avaliação. Espero que outras obras do gênero - e do autor! - possam vir parar nas nossas mãos em breve! A tradução ficou ótima, a diagramação do livro também e eu tô apaixonada pela fonte da capa/dos capítulos! e eu só desejo sucesso e mais sucesso! Obrigada pela atenção e confiança!

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